Gatos-do-mato: estudo revela nova espécie e amplia o conhecimento sobre os felinos neotropicais

A biodiversidade sul-americana ainda guarda descobertas capazes de surpreender até mesmo os pesquisadores de animais conhecidos. Um estudo publicado na revista científica Current Biology, em 2026, revelou que o grupo dos chamados gatos-do-mato, pequenos felinos selvagens do gênero Leopardus, apresenta uma diversidade evolutiva maior do que se imaginava. A pesquisa identificou cinco espécies distintas dentro do complexo de, incluindo uma nova espécie para a ciência e uma nova subespécie. O resultado mostra como animais semelhantes na aparência podem esconder histórias evolutivas bastante diferentes.

Figura 1. Complexo de espécies de gatos-do-mato. (A) Localidades de coleta dos indivíduos do complexo de espécies de gatos-tigre analisados neste estudo. As cores destacam as principais ecorregiões habitadas por cada clado hipotético de gatos-do-mato. As ecorregiões foram obtidas da base Ecorregiões Terrestres do Mundo. As faixas de cores laranja e verde-azulado, assim como o sombreamento cinza, indicam regiões cuja distribuição é incerta. “Antigo L. tigrinus” refere-se ao tratamento taxonômico amplamente aceito para os gatos-do-mato antes da revisão atual.¹⁰
(B) Lado esquerdo do crânio do espécime USNM 395090 (L. tigrinus tigrinus), proveniente da Guiana, após a coleta de fragmentos do osso petroso pelo meato acústico esquerdo para extração de DNA e sequenciamento do genoma. Crédito da foto: J.L.
(C) Espécime vivo de L. tilcayo (ID da amostra: L. tilcayo BOl-2; ID do espécime-testemunho: MNHN-L2), uma espécie de gatos-do-mato recém-descrita, proveniente das Yungas bolivianas. Crédito da foto: P.N.-A.
Para chegar a essas descobertas, os pesquisadores analisaram o genoma de dezenas de felinos, combinando amostras recentes com material preservado em coleções científicas e museus. Essa abordagem, conhecida como paleogenômica ou museômica quando aplicada a materiais históricos, permitiu investigar populações pouco estudadas e esclarecer relações evolutivas que permaneciam incertas. Entre os resultados, os cientistas descreveram o Leopardus tilcayo, encontrado nas florestas dos Yungas bolivianos, e reconheceram uma nova subespécie, Leopardus tigrinus antisuyo, associada aos Yungas peruanos.
A descoberta do Leopardus tilcayo chama a atenção por revelar um felino cuja história evolutiva se diferenciou de outras linhagens há aproximadamente 1,4 milhão de anos. Pequeno e de pelagem castanha, apresenta manchas escuras irregulares e rosetas abertas, características que ajudam a distingui-lo de outros gatos-do-mato. O estudo também identificou sinais de cruzamentos ancestrais entre diferentes linhagens, mostrando que a evolução desses animais foi marcada não apenas pelo isolamento geográfico, mas também por episódios de hibridização ao longo do tempo. Apesar do avanço, a distribuição geográfica completa da nova espécie ainda é desconhecida.
Além de ampliar o conhecimento sobre a diversidade dos felinos neotropicais, o trabalho reforça a importância de identificar corretamente as espécies para orientar ações de conservação. Os pesquisadores encontraram sinais de declínio populacional histórico em diferentes linhagens, embora ressaltem que as estimativas genéticas ainda precisam ser aprofundadas com amostras maiores. Com a identificação de novas unidades evolutivas, torna-se possível investigar melhor suas necessidades ecológicas, ameaças e áreas de ocorrência. A pesquisa também deixa uma mensagem importante: mesmo em grupos relativamente conhecidos, novas ferramentas científicas podem revelar uma biodiversidade ainda pouco compreendida, e conhecer essa diversidade é um passo fundamental para protegê-la.
Referência do artigo: Lescroart, J. et al. (2026). Phylogenomics and museomics reveal five distinct species of tiger cats in South America. Current Biology. https://doi.org/10.1016/j.cub.2026.08.059
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