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Cutias reintroduzidas ajudam a conter a expansão da jaqueira na Mata Atlântica, aponta estudo publicado no Journal of Tropical Ecology

Foto do escritor: Bioconservation
Bioconservation
22 de set.
5 min de leitura

Pesquisa realizada no Parque Nacional da Tijuca demonstra como a recuperação de interações ecológicas pode contribuir para reduzir a sobrevivência de sementes de uma espécie exótica invasora.


A recuperação da fauna nativa pode trazer benefícios que vão muito além do retorno de espécies a um ambiente natural. Animais também desempenham funções fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas, influenciando a regeneração da vegetação, a dispersão de sementes e as interações entre diferentes espécies. Um estudo de autoria de Rafael Moura, Pedro Mittelman e Alexandra Pires, publicado em 2026 no periódico científico Journal of Tropical Ecology, investigou como a reintrodução da cutia (Dasyprocta leporina) pode contribuir para reduzir a sobrevivência de sementes da jaqueira (Artocarpus heterophyllus), uma árvore exótica invasora presente na Mata Atlântica brasileira.


Intitulado “Seed predation by reintroduced agoutis reduces seed survival of exotic invasive jackfruit tree”, o artigo apresenta resultados de pesquisas realizadas no Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, uma importante área de conservação da Mata Atlântica. O trabalho evidencia como a restauração de interações ecológicas envolvendo a fauna nativa pode representar uma estratégia complementar para o manejo de espécies vegetais invasoras.


A jaqueira e os desafios da conservação da Mata Atlântica


Originária do sul da Ásia, a jaqueira foi introduzida no Brasil e atualmente ocorre em diversas áreas da Mata Atlântica. Sua elevada produção de frutos e sementes, associada ao consumo por diferentes animais, favorece sua disseminação em ambientes naturais. No Parque Nacional da Tijuca, a espécie se estabeleceu e se expandiu ao longo do tempo, tornando-se parte dos desafios enfrentados na conservação da biodiversidade local.


Além da competição com espécies vegetais nativas, a presença de árvores exóticas invasoras pode modificar as interações ecológicas e influenciar processos de regeneração da floresta. A jaqueira produz frutos grandes e nutritivos, disponíveis para a fauna, e suas sementes podem ser consumidas por diferentes vertebrados.

Nesse contexto, compreender como os animais nativos interagem com as sementes da jaqueira é importante para avaliar se essas relações favorecem a disseminação da espécie ou contribuem para limitar seu estabelecimento.


A reintrodução das cutias e a recuperação de processos ecológicos


As cutias são roedores nativos que desempenham funções importantes na dinâmica das florestas tropicais, especialmente por meio de suas interações com sementes. Ao transportar e enterrar sementes de determinadas espécies vegetais, esses animais podem contribuir para a dispersão e a regeneração da vegetação.


No Parque Nacional da Tijuca, a cutia foi reintroduzida em 2010 como parte de uma iniciativa de restauração ecológica voltada à recuperação da fauna e de interações que haviam sido comprometidas pela perda de biodiversidade.


Embora as cutias possam atuar como dispersoras de sementes de árvores nativas, sua relação com a jaqueira apresentava uma questão ainda pouco esclarecida: esses roedores poderiam contribuir para a disseminação da espécie invasora ou atuar predominantemente como predadores de suas sementes? Foi a partir dessa questão que os pesquisadores investigaram o destino das sementes de jaqueira em áreas com e sem a presença de cutias estabelecidas.


Como o estudo foi realizado?

Os experimentos foram conduzidos em 2014, durante dois períodos de frutificação da jaqueira: fevereiro, correspondente ao pico de produção de frutos, e julho, período de menor frutificação.


Foram selecionados 20 locais no Parque Nacional da Tijuca, sendo dez em áreas onde as cutias estavam estabelecidas e dez em áreas sem a presença desses animais. Em cada local, os pesquisadores disponibilizaram sementes em duas condições experimentais: expostas à fauna terrestre e protegidas do acesso de mamíferos de médio e grande porte, permitindo apenas o acesso de pequenos roedores.


Ao todo, foram monitoradas 400 sementes, acompanhadas semanalmente durante um mês. Câmeras-trap também foram utilizadas para identificar os animais que interagiram com as sementes, totalizando 380 dias de monitoramento por câmeras.

Esse desenho experimental permitiu comparar a sobrevivência das sementes entre áreas e condições de acesso dos animais, investigando a contribuição das cutias para a predação.


O que os pesquisadores descobriram?


Os resultados demonstraram que a predação por vertebrados foi expressiva: 292 das 400 sementes monitoradas, o equivalente a 73%, foram predadas. As câmeras registraram quatro espécies de consumidores de sementes: a cutia (Dasyprocta leporina), o rato-preto (Rattus rattus), a paca (Cuniculus paca) e o gambá-de-orelha-preta (Didelphis aurita).


Entretanto, a presença de cutias esteve associada a uma redução significativa na sobrevivência das sementes de jaqueira expostas à fauna. Nas áreas onde esses roedores estavam presentes, a sobrevivência das sementes foi 93% menor em decorrência da predação. Outro resultado importante foi que nenhuma semente foi observada sendo dispersada ou armazenada pelas cutias durante os experimentos. Isso indica que, nas condições investigadas, esses animais atuaram predominantemente como predadores das sementes de jaqueira, diferentemente de sua conhecida função de dispersores de sementes de espécies vegetais nativas.


Por que as cutias predaram as sementes de jaqueira?

Uma possível explicação está relacionada às características das sementes dessa árvore. Diferentemente de algumas sementes nativas que podem ser armazenadas pelas cutias para consumo posterior, as sementes de jaqueira apresentam elevada perecibilidade e são consideradas recalcitrantes.


Isso significa que elas são sensíveis à perda de umidade e possuem limitações para armazenamento prolongado. Essas características podem tornar as sementes menos adequadas para o comportamento de estocagem realizado pelas cutias.


Assim, embora o tamanho das sementes e a disponibilidade de frutos possam favorecer o consumo por esses roedores, suas características fisiológicas podem contribuir para que sejam consumidas imediatamente, em vez de serem transportadas e enterradas. O estudo também identificou a ocorrência de deterioração por fungos durante o período de menor frutificação. Esse resultado evidencia que outros fatores biológicos podem influenciar a sobrevivência das sementes, além da predação por animais.


A restauração da fauna como estratégia complementar para o manejo de invasoras

Os resultados contribuem para ampliar a compreensão sobre o papel da reintrodução de espécies nativas na restauração ecológica. A recuperação de uma população animal pode restabelecer interações que influenciam não apenas a regeneração de espécies vegetais nativas, mas também a dinâmica de plantas exóticas invasoras.

No caso investigado, as cutias apresentaram um efeito de resistência biótica à jaqueira, reduzindo a sobrevivência de suas sementes nas áreas em que estavam estabelecidas. Esse resultado indica que a restauração de processos ecológicos pode complementar estratégias convencionais de manejo de espécies invasoras.


É importante destacar, entretanto, que a predação de sementes não significa necessariamente a eliminação da jaqueira ou a interrupção completa de sua expansão. O estudo avaliou a sobrevivência e o destino das sementes em condições experimentais específicas, não a erradicação da espécie em escala de paisagem.

Ainda assim, os resultados reforçam a importância de considerar as interações entre fauna e flora no planejamento de ações de conservação e manejo de ecossistemas alterados.


Ciência e conservação caminhando juntas

A pesquisa demonstra que a reintrodução de animais nativos pode recuperar funções ecológicas capazes de produzir efeitos relevantes sobre outras espécies presentes no ambiente. No Parque Nacional da Tijuca, a cutia, além de sua contribuição para a dispersão de sementes nativas, também demonstrou potencial para atuar como um filtro biológico contra o estabelecimento de uma planta exótica invasora.


O trabalho reforça a importância de iniciativas de restauração ecológica que considerem não apenas a presença das espécies, mas também as interações e os processos que sustentam o funcionamento dos ecossistemas.

Ao investigar essas relações, estudos como este contribuem para o desenvolvimento de estratégias de conservação fundamentadas em evidências científicas e para uma compreensão mais integrada da biodiversidade da Mata Atlântica.


Sobre o artigo

Título: Seed predation by reintroduced agoutis reduces seed survival of exotic invasive jackfruit tree

Autores: Rafael Moura, Pedro Mittelman e Alexandra Pires

Periódico: Journal of Tropical Ecology, volume 42, artigo e32, 2026.

Dados e código da pesquisa: https://doi.org/10.5281/zenodo.19679214

Artigo científico de autoria de Rafael Moura, Pedro Mittelman e Alexandra Pires.

 
 
 

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