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Pesquisa realizada no Parque Nacional da Tijuca demonstra como a recuperação de interações ecológicas pode contribuir para reduzir a sobrevivência de sementes de uma espécie exótica invasora.


A recuperação da fauna nativa pode trazer benefícios que vão muito além do retorno de espécies a um ambiente natural. Animais também desempenham funções fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas, influenciando a regeneração da vegetação, a dispersão de sementes e as interações entre diferentes espécies. Um estudo de autoria de Rafael Moura, Pedro Mittelman e Alexandra Pires, publicado em 2026 no periódico científico Journal of Tropical Ecology, investigou como a reintrodução da cutia (Dasyprocta leporina) pode contribuir para reduzir a sobrevivência de sementes da jaqueira (Artocarpus heterophyllus), uma árvore exótica invasora presente na Mata Atlântica brasileira.


Intitulado “Seed predation by reintroduced agoutis reduces seed survival of exotic invasive jackfruit tree”, o artigo apresenta resultados de pesquisas realizadas no Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, uma importante área de conservação da Mata Atlântica. O trabalho evidencia como a restauração de interações ecológicas envolvendo a fauna nativa pode representar uma estratégia complementar para o manejo de espécies vegetais invasoras.


A jaqueira e os desafios da conservação da Mata Atlântica


Originária do sul da Ásia, a jaqueira foi introduzida no Brasil e atualmente ocorre em diversas áreas da Mata Atlântica. Sua elevada produção de frutos e sementes, associada ao consumo por diferentes animais, favorece sua disseminação em ambientes naturais. No Parque Nacional da Tijuca, a espécie se estabeleceu e se expandiu ao longo do tempo, tornando-se parte dos desafios enfrentados na conservação da biodiversidade local.


Além da competição com espécies vegetais nativas, a presença de árvores exóticas invasoras pode modificar as interações ecológicas e influenciar processos de regeneração da floresta. A jaqueira produz frutos grandes e nutritivos, disponíveis para a fauna, e suas sementes podem ser consumidas por diferentes vertebrados.

Nesse contexto, compreender como os animais nativos interagem com as sementes da jaqueira é importante para avaliar se essas relações favorecem a disseminação da espécie ou contribuem para limitar seu estabelecimento.


A reintrodução das cutias e a recuperação de processos ecológicos


As cutias são roedores nativos que desempenham funções importantes na dinâmica das florestas tropicais, especialmente por meio de suas interações com sementes. Ao transportar e enterrar sementes de determinadas espécies vegetais, esses animais podem contribuir para a dispersão e a regeneração da vegetação.


No Parque Nacional da Tijuca, a cutia foi reintroduzida em 2010 como parte de uma iniciativa de restauração ecológica voltada à recuperação da fauna e de interações que haviam sido comprometidas pela perda de biodiversidade.


Embora as cutias possam atuar como dispersoras de sementes de árvores nativas, sua relação com a jaqueira apresentava uma questão ainda pouco esclarecida: esses roedores poderiam contribuir para a disseminação da espécie invasora ou atuar predominantemente como predadores de suas sementes? Foi a partir dessa questão que os pesquisadores investigaram o destino das sementes de jaqueira em áreas com e sem a presença de cutias estabelecidas.


Como o estudo foi realizado?

Os experimentos foram conduzidos em 2014, durante dois períodos de frutificação da jaqueira: fevereiro, correspondente ao pico de produção de frutos, e julho, período de menor frutificação.


Foram selecionados 20 locais no Parque Nacional da Tijuca, sendo dez em áreas onde as cutias estavam estabelecidas e dez em áreas sem a presença desses animais. Em cada local, os pesquisadores disponibilizaram sementes em duas condições experimentais: expostas à fauna terrestre e protegidas do acesso de mamíferos de médio e grande porte, permitindo apenas o acesso de pequenos roedores.


Ao todo, foram monitoradas 400 sementes, acompanhadas semanalmente durante um mês. Câmeras-trap também foram utilizadas para identificar os animais que interagiram com as sementes, totalizando 380 dias de monitoramento por câmeras.

Esse desenho experimental permitiu comparar a sobrevivência das sementes entre áreas e condições de acesso dos animais, investigando a contribuição das cutias para a predação.


O que os pesquisadores descobriram?


Os resultados demonstraram que a predação por vertebrados foi expressiva: 292 das 400 sementes monitoradas, o equivalente a 73%, foram predadas. As câmeras registraram quatro espécies de consumidores de sementes: a cutia (Dasyprocta leporina), o rato-preto (Rattus rattus), a paca (Cuniculus paca) e o gambá-de-orelha-preta (Didelphis aurita).


Entretanto, a presença de cutias esteve associada a uma redução significativa na sobrevivência das sementes de jaqueira expostas à fauna. Nas áreas onde esses roedores estavam presentes, a sobrevivência das sementes foi 93% menor em decorrência da predação. Outro resultado importante foi que nenhuma semente foi observada sendo dispersada ou armazenada pelas cutias durante os experimentos. Isso indica que, nas condições investigadas, esses animais atuaram predominantemente como predadores das sementes de jaqueira, diferentemente de sua conhecida função de dispersores de sementes de espécies vegetais nativas.


Por que as cutias predaram as sementes de jaqueira?

Uma possível explicação está relacionada às características das sementes dessa árvore. Diferentemente de algumas sementes nativas que podem ser armazenadas pelas cutias para consumo posterior, as sementes de jaqueira apresentam elevada perecibilidade e são consideradas recalcitrantes.


Isso significa que elas são sensíveis à perda de umidade e possuem limitações para armazenamento prolongado. Essas características podem tornar as sementes menos adequadas para o comportamento de estocagem realizado pelas cutias.


Assim, embora o tamanho das sementes e a disponibilidade de frutos possam favorecer o consumo por esses roedores, suas características fisiológicas podem contribuir para que sejam consumidas imediatamente, em vez de serem transportadas e enterradas. O estudo também identificou a ocorrência de deterioração por fungos durante o período de menor frutificação. Esse resultado evidencia que outros fatores biológicos podem influenciar a sobrevivência das sementes, além da predação por animais.


A restauração da fauna como estratégia complementar para o manejo de invasoras

Os resultados contribuem para ampliar a compreensão sobre o papel da reintrodução de espécies nativas na restauração ecológica. A recuperação de uma população animal pode restabelecer interações que influenciam não apenas a regeneração de espécies vegetais nativas, mas também a dinâmica de plantas exóticas invasoras.

No caso investigado, as cutias apresentaram um efeito de resistência biótica à jaqueira, reduzindo a sobrevivência de suas sementes nas áreas em que estavam estabelecidas. Esse resultado indica que a restauração de processos ecológicos pode complementar estratégias convencionais de manejo de espécies invasoras.


É importante destacar, entretanto, que a predação de sementes não significa necessariamente a eliminação da jaqueira ou a interrupção completa de sua expansão. O estudo avaliou a sobrevivência e o destino das sementes em condições experimentais específicas, não a erradicação da espécie em escala de paisagem.

Ainda assim, os resultados reforçam a importância de considerar as interações entre fauna e flora no planejamento de ações de conservação e manejo de ecossistemas alterados.


Ciência e conservação caminhando juntas

A pesquisa demonstra que a reintrodução de animais nativos pode recuperar funções ecológicas capazes de produzir efeitos relevantes sobre outras espécies presentes no ambiente. No Parque Nacional da Tijuca, a cutia, além de sua contribuição para a dispersão de sementes nativas, também demonstrou potencial para atuar como um filtro biológico contra o estabelecimento de uma planta exótica invasora.


O trabalho reforça a importância de iniciativas de restauração ecológica que considerem não apenas a presença das espécies, mas também as interações e os processos que sustentam o funcionamento dos ecossistemas.

Ao investigar essas relações, estudos como este contribuem para o desenvolvimento de estratégias de conservação fundamentadas em evidências científicas e para uma compreensão mais integrada da biodiversidade da Mata Atlântica.


Sobre o artigo

Título: Seed predation by reintroduced agoutis reduces seed survival of exotic invasive jackfruit tree

Autores: Rafael Moura, Pedro Mittelman e Alexandra Pires

Periódico: Journal of Tropical Ecology, volume 42, artigo e32, 2026.

Dados e código da pesquisa: https://doi.org/10.5281/zenodo.19679214

Artigo científico de autoria de Rafael Moura, Pedro Mittelman e Alexandra Pires.

 
 
 

A biodiversidade sul-americana ainda guarda descobertas capazes de surpreender até mesmo os pesquisadores de animais conhecidos. Um estudo publicado na revista científica Current Biology, em 2026, revelou que o grupo dos chamados gatos-do-mato, pequenos felinos selvagens do gênero Leopardus, apresenta uma diversidade evolutiva maior do que se imaginava. A pesquisa identificou cinco espécies distintas dentro do complexo de, incluindo uma nova espécie para a ciência e uma nova subespécie. O resultado mostra como animais semelhantes na aparência podem esconder histórias evolutivas bastante diferentes.

Figura 1. Complexo de espécies de gatos-do-mato. (A) Localidades de coleta dos indivíduos do complexo de espécies de gatos-tigre analisados neste estudo. As cores destacam as principais ecorregiões habitadas por cada clado hipotético de gatos-do-mato. As ecorregiões foram obtidas da base Ecorregiões Terrestres do Mundo. As faixas de cores laranja e verde-azulado, assim como o sombreamento cinza, indicam regiões cuja distribuição é incerta. “Antigo L. tigrinus” refere-se ao tratamento taxonômico amplamente aceito para os gatos-do-mato antes da revisão atual.¹⁰

(B) Lado esquerdo do crânio do espécime USNM 395090 (L. tigrinus tigrinus), proveniente da Guiana, após a coleta de fragmentos do osso petroso pelo meato acústico esquerdo para extração de DNA e sequenciamento do genoma. Crédito da foto: J.L.

(C) Espécime vivo de L. tilcayo (ID da amostra: L. tilcayo BOl-2; ID do espécime-testemunho: MNHN-L2), uma espécie de gatos-do-mato recém-descrita, proveniente das Yungas bolivianas. Crédito da foto: P.N.-A.


Para chegar a essas descobertas, os pesquisadores analisaram o genoma de dezenas de felinos, combinando amostras recentes com material preservado em coleções científicas e museus. Essa abordagem, conhecida como paleogenômica ou museômica quando aplicada a materiais históricos, permitiu investigar populações pouco estudadas e esclarecer relações evolutivas que permaneciam incertas. Entre os resultados, os cientistas descreveram o Leopardus tilcayo, encontrado nas florestas dos Yungas bolivianos, e reconheceram uma nova subespécie, Leopardus tigrinus antisuyo, associada aos Yungas peruanos.


A descoberta do Leopardus tilcayo chama a atenção por revelar um felino cuja história evolutiva se diferenciou de outras linhagens há aproximadamente 1,4 milhão de anos. Pequeno e de pelagem castanha, apresenta manchas escuras irregulares e rosetas abertas, características que ajudam a distingui-lo de outros gatos-do-mato. O estudo também identificou sinais de cruzamentos ancestrais entre diferentes linhagens, mostrando que a evolução desses animais foi marcada não apenas pelo isolamento geográfico, mas também por episódios de hibridização ao longo do tempo. Apesar do avanço, a distribuição geográfica completa da nova espécie ainda é desconhecida.


Além de ampliar o conhecimento sobre a diversidade dos felinos neotropicais, o trabalho reforça a importância de identificar corretamente as espécies para orientar ações de conservação. Os pesquisadores encontraram sinais de declínio populacional histórico em diferentes linhagens, embora ressaltem que as estimativas genéticas ainda precisam ser aprofundadas com amostras maiores. Com a identificação de novas unidades evolutivas, torna-se possível investigar melhor suas necessidades ecológicas, ameaças e áreas de ocorrência. A pesquisa também deixa uma mensagem importante: mesmo em grupos relativamente conhecidos, novas ferramentas científicas podem revelar uma biodiversidade ainda pouco compreendida, e conhecer essa diversidade é um passo fundamental para protegê-la.


Referência do artigo: Lescroart, J. et al. (2026). Phylogenomics and museomics reveal five distinct species of tiger cats in South America. Current Biology. https://doi.org/10.1016/j.cub.2026.08.059 

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A crescente expansão urbana, os atropelamentos em rodovias, os incêndios florestais e a fragmentação dos habitats naturais têm aumentado significativamente o número de ocorrências envolvendo animais silvestres em situação de risco. Nesse cenário, o resgate e a soltura de fauna tornaram-se atividades fundamentais para a conservação da biodiversidade e para a mitigação dos impactos causados pelas ações humanas.

Mas você sabe quando um animal realmente precisa ser resgatado? E quais são os procedimentos necessários para que ele retorne à natureza com segurança?


O que é o resgate de fauna silvestre?

O resgate de fauna consiste na captura segura de animais silvestres que se encontram feridos, debilitados, deslocados de seu habitat ou em situações que representem risco para sua sobrevivência ou para a segurança das pessoas.

Essas situações podem ocorrer devido a:

  • Atropelamentos em estradas;

  • Queimadas e incêndios florestais;

  • Desmatamento e supressão de vegetação;

  • Obras e empreendimentos;

  • Conflitos com seres humanos;

  • Comércio ilegal de fauna;

  • Acidentes em áreas urbanas.

O objetivo do resgate não é simplesmente retirar o animal do local, mas garantir que ele receba os cuidados adequados e tenha condições de retornar à natureza.


Nem todo animal encontrado precisa ser resgatado

Um dos erros mais comuns é acreditar que qualquer animal encontrado sozinho está abandonado ou necessita de ajuda.

Filhotes de aves, mamíferos e outros vertebrados frequentemente permanecem sozinhos por períodos enquanto seus pais buscam alimento. A remoção indevida desses indivíduos pode reduzir suas chances de sobrevivência.

Por isso, antes de qualquer intervenção, é essencial avaliar:

  • O estado físico do animal;

  • A presença de ferimentos;

  • O comportamento apresentado;

  • O contexto ambiental;

  • Possíveis riscos imediatos.

A avaliação correta é uma das etapas mais importantes do processo de manejo.



Técnicas de contenção: segurança para o animal e para a equipe

Cada grupo de animais exige técnicas específicas de captura e contenção.

Durante o resgate, é necessário considerar fatores como:

  • Porte do animal;

  • Comportamento defensivo;

  • Possibilidade de estresse excessivo;

  • Risco de acidentes;

  • Necessidade de equipamentos especializados.

Redes, puçás, caixas de transporte, cambões, luvas de proteção e outros materiais são utilizados de acordo com a espécie e a situação encontrada.

A contenção inadequada pode causar lesões graves, tanto para o animal quanto para os profissionais envolvidos.

Avaliação e destinação dos animais resgatados

Após o resgate, os animais passam por uma avaliação para determinar suas condições físicas e comportamentais.

Dependendo do caso, eles podem:

  • Ser soltos imediatamente;

  • Necessitar de tratamento veterinário;

  • Passar por reabilitação;

  • Ser encaminhados para centros especializados.

A decisão deve sempre considerar a capacidade do indivíduo de sobreviver novamente em ambiente natural.


A importância da soltura responsável

A soltura é muito mais do que abrir uma caixa e liberar um animal.

Para aumentar as chances de sobrevivência, diversos fatores precisam ser avaliados:

  • Condições de saúde do indivíduo;

  • Adequação da área de soltura;

  • Disponibilidade de recursos alimentares;

  • Presença de ameaças;

  • Compatibilidade ecológica da espécie com o local.

Quando realizada de forma inadequada, a soltura pode resultar em mortalidade, conflitos ecológicos e até impactos negativos sobre populações já estabelecidas.

Por isso, o planejamento é uma etapa indispensável do processo.


Resgate e soltura como ferramentas de conservação

Além de salvar indivíduos, as ações de resgate e soltura contribuem para:

  • Conservação da biodiversidade;

  • Redução dos impactos de empreendimentos;

  • Monitoramento da fauna local;

  • Educação ambiental;

  • Produção de conhecimento científico.

Essas atividades são cada vez mais importantes em um cenário de crescente pressão sobre os ecossistemas naturais.


Capacitação faz toda a diferença

Atuar com fauna silvestre exige conhecimento técnico, treinamento prático e compreensão dos aspectos legais e éticos envolvidos.

Profissionais, estudantes e entusiastas da área ambiental que desejam atuar com segurança precisam conhecer os procedimentos corretos de captura, contenção, transporte e soltura de animais silvestres.


Participe do Curso Presencial de Resgate e Soltura de Fauna

Se você deseja aprender na prática as principais técnicas utilizadas em resgates de fauna silvestre, participe do Curso Presencial de Resgate e Soltura de Fauna, que acontecerá no dia 27 de junho.

Durante o treinamento, os participantes terão contato com:

✅ Técnicas de captura e contenção de diferentes grupos de vertebrados;

✅ Equipamentos utilizados em operações de resgate;

✅ Procedimentos de segurança;

✅ Avaliação e manejo dos animais;

✅ Planejamento de solturas;

✅ Aspectos legais e éticos do trabalho com fauna silvestre.


Uma excelente oportunidade para estudantes, biólogos, veterinários, gestores ambientais e profissionais que desejam ampliar seus conhecimentos e atuar de forma responsável na conservação da fauna.


Para mais informações e inscrições, acesse o site https://www.bioconservation.eco.br/resgate-de-fauna e garanta sua vaga.


Biólogo e Doutorando PPGCAF/UFRRJ Rafael Moura - Especialista em Gestão de Risco com Fauna e Treinador de Equipes Oficiais (ICMBio)


 
 
 

Telefone: (21) 99389-4534

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